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A busca compulsiva pela inovação

Na CES 2019, percebo que estamos perdendo, cada vez mais, nosso poder de escolha sobre o que e sobre a forma como consumimos


10 de janeiro de 2019 - 15h06

Destaque da trilha Smart Cities em Las Vegas: transporte voador da Bell (crédito: Jason Bermingham)

É irônico que começo o 2019 visitando uma feira de inovação, sendo que uma das minhas resoluções para o ano novo era passar mais tempo longe das telas. Não me entenda mal. Sou fanático por tecnologia e tenho o perfil clássico de early adopter. Nem sempre fico na fila quando a Apple lança um novo iPhone, mas acompanho as tendências do mercado e faço questão de trazê-las para a minha vida. O problema é que, ultimamente, percebo que passo mais tempo interagindo com os dispositivos do que com as pessoas ao meu redor. E me preocupo que, cada vez mais, estou deixando a tecnologia agir por mim.

Aqui em Las Vegas, esta questão me persegue. Até que ponto as inovações tecnológicas da Consumer Electronics Show vão melhorar a minha qualidade de vida? Por exemplo, o que é que vou ganhar quando a minha casa for capaz de tomar decisões sozinha, quando o meu carro conseguir cruzar a cidade sem eu tocar no volante, quando um algoritmo decidir qual roupa vou vestir e qual restaurante vou frequentar? Não pretendo abandonar a tecnologia tão cedo, mas todo dia acordo com um crescente desejo de achar uma maneira mais saudável – mais minimalista – de interagir com a inovação.

Leo Longo e Diana Boccara (crédito: Barro)

Este modelo de vida foi adotado por dois amigos, Diana Boccara e Leo Longo, em 2015. Na época, eles deixaram de lado a maioria dos seus bens materiais e começaram a se aventurar pelo mundo com apenas um par de malas. Desde então se tornaram nômades digitais, criando conteúdo como o projeto Couple of Things. Acredito que a nova geração de consumidores busca algo parecido – uma existência que valoriza experiência acima de consumo e que defende o poder da livre escolha. Para me dar um norte durante a CES 2019, pedi para a Diana e pro Leo falar um pouco sobre a relação entre a tecnologia e o minimalismo.

Vocês abriram mão de bens materiais, mas a sua vida minimalista, hoje, só é possível por causa dos avanços tecnológicos. Quais são as tecnologias que vocês mais usam?
Muito do que fazemos só foi possível porque existiam recursos tecnológicos acessíveis pra construir uma vida sob um novo modelo. Airbnb, Uber, Cabify, FourSquare, TripAdvisor, Craigslists da vida, Waze, entre outras plataformas colaborativas que nos ajudaram a conseguir administrar nossa logística de vida: morar, comer e nos transportar. YouTube, Facebook, Instagram, Snapchat, Vimeo, Twitter, Pinterest, Spotify, Deezer, Bandcamp, entre outras plataformas de produção de conteúdo, nos ajudaram a ter um espaço de mídia pra publicar nossas criações, de conhecer artistas de todas as áreas pelo mundo e de quebrar a barreira do contato direto com personalidades que há anos atrás seria impossível, ou que geraria um consumo de tempo e de investimento financeiro muito maior. E até outras ferramentas como Analytics, Mailchimp, UNUM, Snapseed, FilmicPro, InShot, Spark Post, entre muitas outras, nos ajudam até hoje a administrar e organizar nossos negócios, nossa divulgação e nosso planejamento. Todas essas tecnologias permitem com que a gente só precise de nossos Macbooks e iPhones pra fazer tudo.

Vocês acham que a próxima geração vai seguir essa tendência de não consumir aleatória e compulsivamente?
Se a gente estiver falando do minimalismo físico e material, não tenho dúvidas que é um movimento de tendência. Até mesmo porque hoje podemos ter muitas coisas dentro de uma só – como foi o exemplo que dei acima: seus livros, sua máquina fotográfica, seu jornal, seu computador, seus mapas, seu telefone, sua TV e muito mais dentro do iPhone. Ter menos coisas será, inevitavelmente, uma consequência. Quem visita algumas capitais orientais como Seul, Tóquio ou Hong Kong consegue ver isso na casa das pessoas e viajando por muitas capitais pelo mundo ocidental a gente já consegue ver esse modelo de vida invadir nosso lifestyle. Mas não sei o quanto o minimalismo, no sentido de ter a consciência de que precisamos e podemos viver com muito menos, é pertinente enquanto modelo de vida pra maioria das pessoas. Estamos sendo mais minimalistas comprando dois livros físicos que com certeza iremos ler ou um pacote de 20 livros pelo Kindle dos quais só iremos ler 5? A famosa regra dos algoritmos que estão decidindo por nós e como isso pode e irá determinar se seremos mais ou menos consumistas, ou mais ou menos seletivos nas escolhas que fazemos. Comemoramos o poder da livre escolha no YouTube, nos canais de TV a cabo, na Netflix, no Spotify, na Amazon ou no Alibaba, mas existe uma breve sensação que, de fato, são essas plataformas que escolhem o que vamos consumir e, consequentemente, a quantidade do que estamos consumindo. É uma grande incógnita como a próxima geração vai lidar com isso. A pergunta que deveríamos fazer é: a próxima geração vai ter consciência e poder de escolha sobre o que é ou não importante pra sua existência?

Vocês conseguem visualizar o estilo de vida que possuem hoje também para o futuro? Ou ao ficarem mais velhos, talvez vocês se sintam inseguros e queiram comprar uma casa, etc.?
A gente não faz ideia, por mais que possamos ler sobre tendências, do que será o mundo daqui 30 anos, quando Diana e eu estaremos com nossos 65, 70 anos. Vamos nos surpreender ainda com o fim de grandes impérios e no futuro vamos dar risada de ferramentas tecnológicas que temos hoje. Da mesma forma que vamos nos encantar com o nascimento de novas invenções. Como sou um otimista, acho que no nosso caso, que temos muito claro quais são nossas paixões e que precisamos de muitíssimo pouco pra sobreviver, a tecnologia só vai nos permitir, cada vez mais, termos mais ferramentas de independência e empoderamento. Não ter essa consciência e não saber como usar novas ferramentas e tecnologias que aparecerão por aí, poderá nos fazer mais reféns e dependentes. Retomando, vemos nosso futuro minimalista, sim. Acreditamos que o menos é mais. Ter pouco nos permite ter mais tempo pra criar, nos reinventar e experimentar novos caminhos. Quanto menos temos, menos temos a perder. E isso pra gente é liberdade. E liberdade é o bem mais valioso que conseguimos conquistar. Disso, não estamos nenhum um pouco interessados em abrir mão.

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